Agentes autônomos desafiam licenças por usuário, mas podem abrir uma nova era de crescimento para o software


Antes de falar no fim do SaaS, é preciso entender o modelo.
SaaS significa Software as a Service, ou Software como Serviço: em vez de comprar licenças definitivas,
instalar sistemas em servidores próprios e cuidar da manutenção, a empresa acessa o software pela internet
mediante assinatura. O fornecedor assume infraestrutura, atualizações, segurança e disponibilidade. Esse
formato é comum em soluções de CRM, finanças, colaboração, atendimento, marketing
e recursos humanos, permitindo ajustar o uso sem grandes investimentos iniciais.
Para os fornecedores, o SaaS trouxe receita previsível
e crescimento conforme aumenta o número de usuários. Daí vem a cobrança por usuário, ou
per-seat pricing: se uma equipe passa de 100 para 150 pessoas, são necessárias 50 licenças extras.
Durante anos, a lógica foi simples: mais usuários significavam mais assinaturas e mais receita. A Inteligência
Artificial, porém, começou a desafiar essa equação.
O que é o “SaaSpocalypse”?
“SaaSpocalypse” é a tese de que agentes autônomos
de Inteligência Artificial podem transformar profundamente o mercado de SaaS. Diferentemente de chatbots, esses
agentes recebem objetivos, analisam informações, consultam sistemas, tomam decisões dentro de limites
definidos e executam tarefas com pouca intervenção humana. Um agente comercial, por exemplo, pode acessar o
CRM, analisar o histórico do cliente, atualizar negociações, preparar propostas e agendar reuniões.
Como essas atividades antes exigiam pessoas acessando diferentes
plataformas, a automação reduz a relação direta entre número de usuários e valor
entregue. Surge, então, o temor de que menos profissionais executando determinadas tarefas também signifiquem
menos licenças contratadas.
Em dezembro de 2024, Satya Nadella, CEO da Microsoft, ampliou
o debate ao afirmar que muitas aplicações empresariais são, em essência, bancos de dados com regras
de negócio, lógica que poderia ser parcialmente assumida por agentes. A discussão se intensificou em
fevereiro de 2026, quando novas capacidades do Claude Cowork, da Anthropic, aumentaram o receio de substituição
de atividades oferecidas por empresas de software, informação e serviços. A reação retirou
cerca de US$ 300 bilhões do valor de mercado do setor.
Segundo a Bain & Company, índices de software caíram
aproximadamente 15% em poucas semanas e 25% em relação às máximas dos 12 meses anteriores. Apesar
disso, a retenção de clientes permaneceu próxima ou acima de 90%, indicando uma reavaliação
de riscos futuros, e não o desaparecimento imediato do SaaS. Ainda assim, a preocupação é legítima:
a IA desafia fundamentos que sustentaram o crescimento desse modelo por décadas.
A cobrança por usuário pode perder o sentido
Cobrar por usuário faz sentido quando o software aumenta
a produtividade. Mas, se a IA passa a executar parte do trabalho, o número de acessos humanos deixa de refletir o valor
entregue. Uma empresa com 500 usuários pode precisar de apenas 450 licenças após automatizar tarefas,
mesmo que o sistema se torne mais importante. A Bain observa que a IA também cria custos variáveis de processamento
e manutenção. Assim, o fornecedor pode entregar mais valor com menos usuários e faturar menos se depender
apenas da cobrança por licença.
A interface deixa de ser o centro da experiência
Com agentes de IA, parte da navegação por telas
pode desaparecer. Em vez de montar um relatório manualmente, o usuário poderá solicitar uma análise
e um plano de ação. O agente acessa sistemas por APIs e protocolos como o MCP. Dessa forma, softwares podem
continuar essenciais nos bastidores, mesmo sem serem abertos diretamente. O risco é maior para produtos cujo valor
está apenas em uma interface sobre dados e processos fáceis de reproduzir.
Funcionalidades genéricas ficam mais fáceis
de copiar
A IA reduziu o custo e o tempo de desenvolvimento. Atividades
como organizar documentos e gerar relatórios podem ser atendidas por fluxos que combinam modelos, APIs e sistemas existentes.
Isso não significa a substituição imediata
de CRMs ou plataformas reguladas. Porém, funções genéricas podem virar recursos de soluções
maiores. Para a Bain, softwares padronizados, com poucos dados proprietários e baixas barreiras de troca, são
mais vulneráveis. Sistemas com regras complexas, integrações profundas e dados exclusivos são
mais resistentes.
Por que o fim do SaaS pode não acontecer?
O cenário mais provável não é o desaparecimento
do SaaS, mas uma mudança em sua forma de acesso, integração, venda e precificação. Para
agir com segurança, agentes precisam de dados confiáveis, permissões e regras. Por isso, sistemas de
registro continuam fundamentais: CRMs preservam históricos de clientes, ERPs mantêm informações
financeiras e plataformas especializadas aplicam controles.
A IA pode interpretar pedidos, mas não deve inventar saldos,
alterar contratos sem autorização ou aprovar pagamentos fora das políticas. Esses sistemas permanecem
como fontes de dados e conformidade, enquanto os agentes atuam como uma camada de orquestração.
A IA pode usar o software, não o substituir
Esse é o argumento de Jensen Huang, CEO da NVIDIA. Agentes
não precisam recriar planilhas, navegadores ou CRMs se puderem usar ferramentas maduras e integradas. O desafio dos
fornecedores será torná-las acessíveis à IA.
A própria Anthropic reforça essa visão:
seus agentes operam com Excel, Word e sistemas empresariais. Em vez de eliminá-los, conectam suas funcionalidades para
executar processos mais amplos. A IA reduz cliques, não necessariamente a importância dos sistemas.
Os fornecedores já estão adaptando suas plataformas
A Salesforce exemplifica essa transformação com o Headless 360, que expõe dados, processos e regras por APIs, MCP e comandos para pessoas e agentes. A interface deixa de ser a única entrada, mas a plataforma continua oferecendo controles e lógica operacional.
A IA pode ampliar o mercado de software
Agentes e SaaS podem crescer juntos. Grande parte do trabalho
empresarial envolve coordenar ERP, planilhas, e-mails, CRM e aprovações. A Bain estima que automatizar essa
atividade represente uma oportunidade de cerca de US$ 100 bilhões nos Estados Unidos, com mais de 90% ainda não
capturados.
O Gartner projeta agentes especializados em 40% das aplicações
empresariais até o fim de 2026, ante menos de 5% em 2025. Em um cenário otimista, a IA agêntica poderá
responder por 30% da receita de software empresarial em 2035.
A tendência pode ser menos “agentes contra aplicações”
e mais “agentes dentro, sobre e entre aplicações”.
A autonomia ainda encontra limites importantes
Também existe uma distância considerável
entre uma demonstração impressionante e uma operação empresarial confiável. Agentes podem
interpretar informações incorretamente, executar etapas indesejadas, sofrer ataques por meio de conteúdos
maliciosos, consumir recursos além do previsto ou tomar decisões que não respeitam todas as particularidades
de um processo. Integrações, permissões, observabilidade, segurança, governança, rastreabilidade
e supervisão humana continuam indispensáveis.
O Gartner prevê que mais de 40% dos projetos de IA agêntica
iniciados até 2027 poderão ser cancelados devido a custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou
controles de risco inadequados. Em 2026, a consultoria também classificou a IA agêntica no pico das expectativas
infladas e apontou que apenas 17% das organizações haviam implantado agentes, apesar da elevada intenção
de adoção.
Isso não invalida a tecnologia. Mostra apenas que substituir
sistemas empresariais maduros é muito mais difícil do que produzir uma demonstração em um ambiente
controlado.
O que realmente pode morrer na era dos agentes?
O SaaSpocalypse talvez esteja mirando no alvo errado. O que está
ameaçado não é o software como serviço em si, mas uma versão específica do modelo:
aplicações fechadas, dependentes de interfaces manuais, cobradas exclusivamente por usuário e pouco diferenciadas
por dados, conhecimento ou processos proprietários.
A cobrança por assento não deve desaparecer por
completo. Ela ainda funciona quando o valor está diretamente ligado ao número de pessoas atendidas. Entretanto,
tende a dividir espaço com preços baseados em consumo, quantidade de tarefas, volume processado ou resultados
alcançados.
A transição provavelmente será gradual.
Em uma análise de mais de 30 fornecedores tradicionais de SaaS com recursos de IA, a Bain identificou que aproximadamente
65% já haviam adotado modelos híbridos, combinando licenças por usuário com métricas de
uso ou acesso a funcionalidades de IA. Nenhum havia migrado integralmente para uma cobrança baseada apenas em consumo
ou resultados.
O futuro pode incluir uma assinatura básica para usuários
humanos, acompanhada de cobranças por documentos processados, chamados resolvidos, transações analisadas,
oportunidades qualificadas ou horas de trabalho automatizadas. Em outras palavras, o cliente deixará de pagar somente
pelo direito de acessar a ferramenta e passará a pagar também pelo trabalho realizado.
Quem deve crescer no mundo pós-SaaSpocalypse?
Os vencedores não serão necessariamente aqueles
que abandonarem o SaaS. Serão aqueles que reconstruírem seus produtos para um ambiente no qual humanos e agentes
trabalham juntos. Isso significa oferecer APIs bem documentadas, integrações seguras, suporte a padrões
como MCP, permissões granulares, registros de auditoria, dados estruturados e mecanismos para acompanhar cada decisão
tomada por um agente.
Também significa repensar a experiência. O software
poderá continuar oferecendo uma interface visual para pessoas, mas precisará disponibilizar outra camada de
interação para máquinas. O produto deixará de ser apenas um destino que o usuário precisa
abrir. Ele se tornará uma capacidade que pode ser chamada no momento certo, dentro de um processo maior.
As empresas mais bem posicionadas serão aquelas que controlam
dados relevantes, compreendem profundamente os processos de seus clientes e conseguem transformar esse conhecimento em ações
seguras e mensuráveis.
Uma interface bonita pode ser reproduzida. Um histórico
confiável, uma arquitetura integrada, regras de negócio bem modeladas e décadas de conhecimento de um
setor são muito mais difíceis de copiar.
O que o SaaSpocalypse significa para a sua empresa?
Para quem contrata tecnologia, a resposta não é
cancelar todas as assinaturas e substituir o ambiente inteiro por um agente genérico. O caminho mais seguro começa
pela análise dos processos. Quais atividades consomem mais tempo? Onde existem tarefas repetitivas? Quais decisões
dependem de informações espalhadas em vários sistemas? Que resultado pode ser medido com clareza? Em
quais situações o risco permite algum grau de autonomia?
A partir dessas respostas, a empresa pode integrar agentes aos
softwares que já utiliza, modernizar aplicações legadas, criar APIs, organizar dados e desenvolver soluções
personalizadas para os pontos em que produtos prontos não atendem completamente às necessidades do negócio.
Um protótipo pode provar que a IA executa uma tarefa.
Transformá-lo em uma solução de produção exige arquitetura, segurança, governança,
monitoramento, integração e mecanismos de escalonamento para pessoas. É justamente nessa passagem entre
uma boa demonstração e uma operação confiável que a experiência em desenvolvimento
de software faz diferença.
Com 30 anos de atuação, a Visionnaire combina sua
experiência como Fábrica de Software com projetos práticos de Inteligência Artificial, ajudando
empresas a integrar sistemas, desenvolver agentes, modernizar aplicações e levar soluções de IA
do planejamento à produção.
Afinal, o SaaSpocalypse vai acontecer?
O SaaSpocalypse é um alerta importante, mas uma profecia
incompleta. A IA deve pressionar empresas que dependem exclusivamente da venda de licenças por usuário. Algumas
aplicações serão consolidadas, funcionalidades serão comoditizadas e fornecedores que tratarem
a IA como um simples chatbot decorativo poderão perder espaço.
Mas os agentes não trabalham no vazio. Eles precisam de
dados, ferramentas, regras, integrações, segurança e sistemas confiáveis para transformar intenção
em ação. Por isso, o cenário mais provável não é o fim do SaaS; é o surgimento
de um SaaS menos dependente de telas, mais orientado a resultados e preparado para ser utilizado tanto por pessoas quanto
por máquinas.
A pergunta estratégica deixou de ser “a IA vai substituir
o nosso software?”. A pergunta correta é: o nosso software está preparado para ser usado pela IA?